De pouso forçado a voo cancelado: Mossoró perde a Azul e Fátima perde mais uma batalha pelo desenvolvimento potiguarMais do que o fim da rota, o que chama atenção é um detalhe que muitos já esqueceram: em fevereiro, a governadora Fátima Bezerra esteve com a direção da Azul, em São Paulo, prometendo empenho para manter a ligação Mossoró-Recife. |
Dá para sentir o cheiro de oportunidade perdida. A Azul puxou a mochila, fechou as cortinas e saiu de cena no Aeroporto Governador Dix-Sept Rosado, em Mossoró. A última decolagem partiu às 15h20 de 7 de março deste ano, encerrando sete anos de operação na cidade.
A retirada foi organizada: custos operacionais em alta, crise global na cadeia de suprimentos, dólar nas alturas, falta de aeronaves... o combo clássico para puxar a escada do desenvolvimento regional. Nesta segunda-feira, 11 de agosto, a companhia confirmou o encerramento definitivo de suas operações em 14 cidades do país, entre elas a "Capital do Oeste Potiguar".
Mais do que o fim da rota, o que chama atenção é um detalhe que muitos já esqueceram: em fevereiro, a governadora Fátima Bezerra esteve com a direção da Azul, em São Paulo, prometendo empenho para manter a ligação Mossoró-Recife. O CEO da empresa acenou positivamente e garantiu: a suspensão seria temporária, "voltaremos o mais rápido possível". Retórica pura.
O resultado está aí: o voo saiu do hangar, mas Mossoró entrou no silêncio aéreo. Sem alternativas concretas - como a redução do ICMS sobre o querosene de aviação (QAV) -, o governo ficou na arquibancada enquanto a Azul partia para um aeroporto vizinho com melhores condições.
O vereador Thiago Marques tentou agir antes da turbina esfriar: buscou diálogo com a Azul, a Infraero e a bancada federal, pediu incentivos e medidas concretas para manter a rota. Mas o som que veio do Palácio foi o mesmo: silêncio.
Agora, a segunda maior cidade do estado, motor econômico do Oeste Potiguar, está reduzida ao sufoco logístico: para embarcar, o cidadão terá que ir a Natal ou Fortaleza. Uma derrota política para o que poderia ter sido uma vitória estratégica.
Números que doem
O aeroporto de Mossoró passa por uma reforma de R$ 75 milhões - R$ 30 milhões já aplicados em pista, balizamento e terminal. Em 2019, chegou a operar mais de 520 voos e transportar 31 mil passageiros num único ano, prova de que existe demanda. Mesmo com investimentos e promessas, a retomada não saiu do solo.
Na Assembleia, o deputado Ubaldo Fernandes puxou audiência pública para discutir a retração das rotas e o impacto na economia local - turismo, comércio, atração de investimentos -, mas obteve apenas respostas protocolares.
Enquanto isso, estados vizinhos avançam. Em Pernambuco, o aeroporto de Petrolina concluiu, em setembro de 2024, a terceira fase de modernização: R$ 56 milhões aplicados, sala de embarque dobrada, três novos portões e capacidade para 500 mil passageiros por ano. Foram 262 mil só no primeiro semestre de 2024. O Recife-Guararapes, maior terminal do Norte-Nordeste, opera como hub regional, com estrutura para 15 milhões de passageiros anuais, 70 balcões e 15 pontes de embarque.
Sergipe também se moveu: em junho de 2024, reabriu o aeroporto de Aracaju-Santa Maria, ampliado para receber até 4,3 milhões de passageiros por ano, com pátio, terminal e infraestrutura que geram conectividade e desenvolvimento.
Enquanto Pernambuco e Sergipe fazem o interior voar, o RN parece ter apertado o botão de _pause_: infraestrutura pronta, voos suspensos.
O "temporariamente suspenso" prometido por Fátima Bezerra virou "sem previsão" - e Mossoró segue fora da malha aérea, isolada do progresso que decola nos aeroportos vizinhos.

